domingo, 8 de novembro de 2026

UM POUCO DE POESIA PARA ACALENTAR O CORAÇÃO - A PROCURA DA POESIA PERFEITA

 A PROCURA DA POESIA PERFEITA

BICO DE PENA


1. Raymond Carver — Vinho Tardio (Late Wine) - Este poema resume a calmaria do amor maduro na maturidade, o companheirismo silencioso e a gratidão pelas pequenas coisas da rotina compartilhada.

Vinho Tardio

"Estávamos os dois perto da janela, olhando
a chuva fina que caía sobre os arbustos.
Nenhum de nós dizia nada. Estávamos apenas cansados
após um longo dia de trabalho, contentes por estar ali,
juntos e em silêncio, vendo a luz sumir.
O amor que temos agora é um vinho tardio —
não tem a pressa ou a fúria da colheita jovem,
mas tem o gosto profundo da terra que descansou.
Você colocou a mão sobre o meu ombro.
E foi o suficiente para o resto da noite."


2. Wisława Szymborska — Um Amor Feliz (Miłość szczęśliwa) - Szymborska questiona a obsessão do mundo pelo amor dramático e tumultuado (a paixão), exaltando o amor que traz paz, estabilidade e cumplicidade comum.

Um Amor Feliz
"Um amor feliz. Isso é normal?
É sério? É proveitoso?
O que o mundo ganha com dois seres
que não veem o mundo ao redor?
(...)
Olhem para eles: mal jantam na penumbra,
mal se movem na rotina que os acolhe.
Mas quem ganha com isso? Ninguém.
Os mesmos privilégios da calmaria,
a mesma justiça de estar no mesmo teto.
É uma conspiração contra o segredo do caos!
(...)
Que os que nunca encontraram um amor feliz
digam que tal coisa não existe em lugar nenhum.
Com essa fé, ser-lhes-á mais fácil viver e morrer."


3. Pablo Neruda — Soneto XVII (De Cem Sonetos de Amor) - Este é o ápice da transição da paixão idealizada para o amor concreto. Neruda canta o afeto que não precisa de aparências, que se enraíza na própria existência do outro.

Soneto XVII
"Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas escuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças ao teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outro modo,
senão deste modo em que não sou nem és,
tão perto que a tua mão sobre o meu peito é minha,
tão perto que se fecham teus olhos com meu sono."

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